Quinta, 14 Março 2019 03:49

Pesquisadores querem derrubar tabu e atrair voluntários para estudos clínicos

Para que um medicamento chegue até as farmácias ou aos postos de saúde são necessários vários testes em seres humanos. E embora o número de voluntários em estudos clínicos tenha aumentado nos últimos anos, conseguir participantes ainda é um desafio para pesquisadores mineiros, que têm trabalhado para mudar esse cenário e fomentar o desenvolvimento da ciência no país.

No imaginário de parte da população, a ideia de ter os efeitos de uma nova droga observados no organismo carrega uma imagem negativa, de “cobaia”, como explica a coordenadora do Centro de Pesquisas Clínicas do Hospital das Clínicas da UFMG, Flávia Andrade Ribeiro. 

“Infelizmente, as pessoas ainda têm uma resistência com relação a isso, muito porque não conhecem o aparato de segurança que existe para que uma pesquisa chegue na fase de testes em humanos”, diz a médica. 

Divulgação em jornais, TV e redes sociais, cartazes pela cidade com explicações sobre benefícios e riscos de ser voluntário em um estudo e até mesmo o boca a boca são estratégias adotadas por pesquisadores para atrair mais interessados. 

Ainda que muitos candidatos sejam da área da saúde, Flávia garante que as ações têm trazido resultados. No Brasil, a UFMG e a Universidade de São Paulo (USP) foram as duas instituições escolhidas por uma entidade internacional para testar a vacina contra a zika em humanos. 

Só a federal mineira conseguiu recrutar cerca de 40 pessoas a mais para o estudo e, mesmo após ter atingido o número ideal, foi procurada por outros interessados em tomar as doses do medicamento. Ao todo, 138 pessoas recebem três aplicações da droga no Hospital das Clínicas e serão monitoradas quinzenalmente pelos próximos dois anos. 

Uma das participantes é a estudante de nutrição Lívia Iannarelli Galvão Alves, de 18 anos, que soube da oportunidade por meio de um cartaz. Ela convidou a irmã gêmea, Camila, para aderir à causa também. Mesmo que nunca vejam o resultado da pesquisa, as duas garantem que fazem “por um bem maior”. “Não estou ganhando nada com isso, mas é algo que faz a diferença para a comunidade inteira”, diz Lívia.

Abordagem

Atualmente, 35 estudos sobre novos fármacos estão em curso no Hospital das Clínicas da UFMG. Porém, desde a criação do Centro de Pesquisas Clínicas da unidade, em 2007, já foram testadas cerca de cem novas tecnologias voltadas para oncologia, dermatologia, saúde mental e HIV, além de remédios contra os males de Parkinson e Alzheimer. 

Para a aprovação dos recursos foi preciso que centenas de indivíduos se apresentassem como voluntários. “Se ninguém participar, não haverá novas tecnologias e vamos paralisar a produção de novos medicamentos. Temos todo um aparato de segurança, com comitê de ética e termos de consentimento garantindo o cuidado com o organismo das pessoas”, explica Flávia Ribeiro.

Vida após a Vida

Engana-se quem pensa que pode participar do desenvolvimento científico do país somente se estiver vivo. No programa de doação de corpos para estudos na Faculdade de Medicina da UFMG, chamado Vida Após a Vida, é possível manifestar a intenção de ser voluntário ao morrer. 

Até o fim de 2018, o projeto somava mais de 1.500 interessados em deixar o cadáver para estudos na área da saúde, número que dobrou nos últimos 15 anos. 

A aposentada Aglaé Horta Rodrigues, de 80 anos, se inscreveu no projeto há três, quando leu um artigo de jornal que falava sobre um professor que havia deixado o cadáver para a universidade. 

“Achei a atitude dele tão bonita, um gesto de altruísmo. Aí pensei que queria fazer o mesmo com meu corpo e ajudar a medicina e a ciência”, conta. 

Em seguida, ela procurou a instituição, conversou sobre o programa, foi entrevistada pela equipe e assinou o termo de intenção. Ao chegar em casa e conversar com o marido, David Rodrigues, o convenceu também a participar. 

O fim da vida chegou mais cedo para David, cujo corpo já integra o grupo de cadáveres utilizados nas aulas de anatomia. Ele faleceu aos 79 anos, de insuficiência renal. A família se despediu ainda no hospital, com uma cerimônia simples. Em seguida, funcionários da UFMG foram até o local fazer o recolhimento, que não teve custo para a esposa e os filhos. 

Consentimento

Nessas situações, os familiares devem assinar um segundo termo, de cessão do corpo. Caso não concordem com o desejo do ente querido, é possível avisar a UFMG sobre a mudança de ideia. Para evitar que isso ocorra, a instituição entrevista os interessados em fazer a doação e pede que eles conversem com os familiares sobre a intenção. 

A Faculdade de Medicina recebe cerca de 12 cadáveres e cem manifestações de interesse por ano, explica o diretor da unidade e coordenador do programa, Humberto José Alves. 

“Nos últimos oito anos, temos visto cada vez mais pessoas dispostas a ajudar. O tabu ainda existe quando se fala de corpos, mas a divulgação e até mesmo os participantes do projeto têm ajudado a sociedade a entender o gesto. Agradeço aos doadores e às famílias”, diz. 

Aprendizado

Além de auxiliar os calouros a entender diferenças e particularidades de cada ser humano e ver como funcionam as estruturas, o trabalho com os cadáveres também é importante para que os alunos se acostumem com a morte e estejam preparados para auxiliar a família dos falecidos. 

É o impacto de lidar com um corpo que faz as pessoas refletirem sobre a finitude da vida”, diz Humberto. 

Estudante do último período de medicina, João Gabriel Zanetti, de 25 anos, decidiu ser doador após passar pelas aulas de anatomia. “O professor falou sobre o programa e percebi que as opções eram cremar, enterrar ou doar o cadáver. Esta última pode ser mais útil e ainda ajuda alunos, como fui ajudado”, afirma.

 

 

 

 

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